Arquivo do blog

O ELEITOR BRASILEIRO E SEU COMPLEXO DE AMÉLIA

Por Maik Oliveira

Em quase vésperas de eleições, dia 7 de outubro é a data marcada para o primeiro turno, é comovente ver a mobilização do povo em torno do candidato do qual é simpatizante. Nesse motim de escolhas, fico me indagando: o que justifica tanta comoção popular em torno de um determinado político, seja ele quem for? 

Quando paro pra pensar na situação do meu bairro e suas ruas esburacadas, com péssima iluminação, esgoto a céu aberto. Quando olho pra minha cidade e vejo a escalada da violência, o abandono da educação básica, a incapacidade dos nossos gestores em deixar de lado o cínico egoísmo e por um momento pensar no coletivo, sim, pois não é incapacidade para fazer, é má vontade mesmo, ainda a voracidade em tirar do povo, através de impostos, os mais variados, sem que haja contrapartidas que beneficiem a estrutura citadina, por mais básica que seja. 

Quando observo meu Estado, com suas demandas não atendidas, uma enormidade de promessas não cumpridas, o ato de enganar que sempre foi a moeda de troca da velha política suja e descarada que deu a tônica no tempo dos coroneis. 

E lá em cima, no meu país, onde a prática contumaz e oficial de quem exerce o poder, ainda que momentaneamente, é subtrair dos cofres públicos e pensar em leis e execuções de ideias que somente submetem o povo à miséria do obscurantismo, onde não há investimento na ciência, muito pelo contrário, dela se toma o tudo, a saúde é um flagelo dos mais desumanos, a educação superior não capacita adequadamente e quando acontece é à duras penas pelo esforço quase heroico dos profissionais que se submetem a situações de penúria, sem condições para ensinar, e formar de fato e absolutamente.

A segurança pública é uma piada de mal gosto em um país que mata por cultura. Segundo últimos dados, quase 64 mil pessoas foram assassinadas em 2017. Aqui se  mata mais do que a guerra da Síria, é o quinto país do mundo onde se mata mais mulheres, ainda tem os crimes de homofobia, contra a criança, contra o povo negro, contra o povo indígena. 

Para não continuar falando de desgraças paramos por aqui. Fico pensando: o que justifica tanta idolatria em torno de um candidato, repito, seja ele qual for, se ao longo dos mais de 500 anos de história não houve quem estancasse de uma vez por todas o absurdo que é a problemática brasileira?

É que em nosso país - e ai pretensiosamente estou apresentando um diagnóstico - o povo, em sua maioria, analfabeto político, desconhece sua força em uma democracia adolescente, cambaleante, frágil. Aqui, em terras tupiniquins, aprendemos que a solução não está em um modo de pensar política, achamos que não se pode encontrar em uma filosofia de administração pública, fundamentos para a ação daqueles que a representa. 

Aprendemos erroneamente que o político é que é o herói, uma espécie de "salvador da pátria", é ele que vai vestir a sua capa vermelha e utilizando seus superpoderes, ou sua marreta poderosa, ou sua estrela vermelha, com um tucano nos ombros ou uma bíblia na mão, se lançará sobre os problemas, ou sobre quem está causando o problema e resolverá como em um passe de mágica, os imbróglios que solapam direitos, marginalizam o pobre, destrói sonhos, sufoca e mata. 

Os políticos brasileiros, preguiçosos, covardes e oportunistas como são, não agravando a todos, mas em sua maioria, entenderam isso, aprenderam ao longo da história que o povo gosta mesmo é de se "emprenhar" pelo ouvido, de ser enganado, de promessas mirabolantes, impossíveis, e quanto mais absurdas forem, melhor. Já teve até gente que prometeu trazer a praia de Ilhéus para Itabuna, imagina só! 

Aprenderam, os políticos, que não é necessário ter um projeto que dê base para um programa de governo, que apresente os caminhos reais possíveis para construir estruturas sólidas rumo às soluções necessárias, eles não estão nem aí para isso, preocupam mesmo é como se coligar, não importando se o coligado esteja no reino "Tão, tão distante" como no conto do Sherek, daquilo que ele acredita, basta apenas que some com seu tempo midiático, para ter mais tempo de visibilidade a vociferação daquilo que o povo adora ouvir, promessas, mentiras, enganos. 

Você pensa que eles não sabem disso?! Estão calejados de saber, presta atenção nos debates, não há nem quem pergunte sobre a que cargas d'água anda o programa de governo de cada um, nem mesmo os pseudos intelectuais jornalistas são capazes de indagar sobre isso, limitam-se em formular  peguntas mortas, baseadas em temas isolados, somente para dar a deixa ao candidato, para que ele vocifere mais promessas, que o povo adora, bate palmas, elogia, diz que seu candidato venceu o debate, que fulano é inteligente, que beltrano é o cara! Aliás, deixou de ser um humano qualquer, virou um mito! 

La Boétie já dizia em seu "Discurso da Servidão voluntária": "Pobre gente miserável, povos insensatos, nações obstinadas em vosso mal e cegas ao vosso bem, deixai roubar, sob vossos próprios olhos, o mais belo e o mais claro de vossa renda, pilhar vossos campos, devastar vossas casas e despojá-las dos velhos móveis de vossos ancestrais! Viveis de tal modo  que nada mais é vosso. Parece que doravante considerareis uma grande felicidade se vos deixassem apenas a metade de vossos bens, de vossas famílias, de vossas vidas. E todos esse estrago, esses infortúnios, essa ruína, enfim, vos advém não dos inimigos, mas sim, por certo, do inimigo, e daquele mesmo que fizestes como ele é, por quem ides tão corajosamente à guerras e para a vaidade de quem vossas pessoas nela enfrentam a morte a cada instante". 
Maik Oliveira é Cientista Social,
Pós graduado em Sociologia pela
Universidade Estadual de Santa Cruz -
UESC

Pois é, La Boétie, conseguiu exprimir com maestria a natureza do eleitor brasileiro, matando, morrendo, perdendo amigos,entes queridos, gastando tempo, dinheiro, a vida, em benefício de quem  só consegue pensar no poder, não no poder para governar com equidade, mas no poder pelo poder, somente. O eleitor brasileiro tem por lema: "Bom é fulano, que rouba, mas faz!" E quando faz! 

Vivemos em uma sociedade de idiotas,que idolatra seu próprio inimigo, que "não têm a menor vaidade e acham bonito não ter o que comer." Aqui, o "complexo de vira-latas" deu lugar ao "complexo de Amélia" e o pior, não sabemos até quando, parece não ter fim!